Em 1881, um em cada vinte camponeses do Vêneto estava doente de uma doença que começava pelas mãos, passava pelo estômago e terminava na cabeça. Chamava-se pelagra, e a causa estava em cima do fogão, dentro do caldeirão de cobre, três vezes por dia.
Por que comer milho, se plantavam trigo
A pergunta parece simples e abre o século inteiro. O camponês vêneto plantava trigo e comia milho.
Não era gosto. Era conta. O trigo valia dinheiro: vendia-se na cidade, e com ele se pagavam o aluguel da terra e as dívidas. O milho, chegado da América dois séculos antes, rendia muito mais por campo e custava muito menos. Uma casa que produzia os dois fazia a conta óbvia: vendia o trigo e comia o milho.
Daí a polenta. De manhã, ao meio-dia e à noite, por anos seguidos, com o que houvesse ao lado, uma verdura, um pedaço de queijo, raramente um ovo. Emilio Franzina, historiador da emigração vêneta, chegou a escrever que a carne de boi era, para aquela gente, praticamente uma lenda.
O defeito que não se via
O milho tem um defeito invisível. A niacina que ele contém, a vitamina que hoje se chama B3, está presa numa forma que o intestino humano não consegue aproveitar. E o milho é pobre em triptofano, a substância com que o próprio corpo fabricaria essa vitamina. Quem vive quase só de milho, mais cedo ou mais tarde, adoece de carência.