Uma família carrega dois nomes: o que vai para o papel e o que fica na boca dos vizinhos. Nesta, o escrito mudou três vezes em quinhentos anos. O falado atravessou quatro séculos e um oceano sem mexer numa letra.
Em algum momento entre 1541 e 1565, um funcionário da República de Veneza percorreu o vicariato de Schio, no norte da província de Vicenza, levantando bens e rendimentos. Era trabalho de rotina: a Sereníssima cobrava impostos e precisava saber quem tinha o quê.
Numa das linhas do cadastro de 1544, ele escreveu: "Da Marco ditto marola di toni".
Marco, chamado marola, dos tonos. O funcionário anotou o nome oficial e, ao lado, a alcunha pela qual o homem era conhecido — era por ela que os vizinhos o identificariam, e era isso que interessava a quem ia cobrar.
O documento está no fundo Estimo do Arquivo do Estado de Vicenza.
Duas maneiras de nomear a mesma gente
Daquela linha em diante, a família produziu dois nomes.
Um foi para o papel e virou sobrenome: Tono deu origem a De Toni. Passou por escrivães, párocos, notários, funcionários de imigração e cartórios brasileiros, e chegou até hoje em três grafias: De Toni, Detoni e Dettoni.
O outro nunca foi para o papel: Marola. É um soranòme, apelido de casa, desses que existiam em quase toda aldeia vêneta para distinguir famílias de mesmo sobrenome. Marola era o nome de um lugar, e a alcunha dizia a procedência: os que vieram de Marola.