No dia 20 de outubro de 1888, um funcionário da hospedaria de imigrantes de Juiz de Fora abriu o livro de matrícula e escreveu sete nomes. Era a família De Toni chegando ao Brasil. O destino dela não está escrito na linha dela: está quatro famílias acima, e a linha dela repete com aspas.
O chefe da família: De Toni Guerino, 46 anos, italiano. A mulher, Elizabetta, 37. E cinco filhos: Francesco, 14; Pietro, 12; Antonio, 10; Giuseppe, 6; Elizabetta, 3. Tinham vindo de Gênova a bordo do vapor Malabar.
O papel existe e pode ser consultado hoje: página 56A do livro SG-801, fundo Imigrantes do Arquivo Público Mineiro, microfilme rolo 01, registro 15009.
Cinco meses depois da Abolição
Em 13 de maio daquele mesmo ano, a Lei Áurea tinha acabado com a escravidão. As fazendas de café precisavam de braços, e o governo vinha montando havia anos o sistema para trazê-los da Europa: a Inspetoria Geral de Terras e Colonização, de 1876; a lei paulista de 1884; a Sociedade Promotora de Imigração, de 1886. Agências e subagentes percorriam as aldeias do norte da Itália oferecendo passagem.
Do outro lado, o Vêneto rural atravessava uma crise longa. A família de Guerino não era de aventureiros jovens: ele tinha 46 anos, mulher, cinco filhos e uma vida inteira feita ali. Quem embarca assim não está atrás de fortuna. Está saindo.
E vinha saindo havia muito tempo. Em 1686, os De Toni aparecem num documento de partilha do Vêneto na coluna dos arrendatários: quem trabalhava a terra, não quem era dono dela. Depois disso são 154 anos sem que a família produza um único documento próprio.