Ninguém da família atravessou sozinho, e ninguém atravessou ao mesmo tempo que todos. Os irmãos partiram em anos diferentes, de modos diferentes, e foram parar em lugares diferentes do Brasil.
Quem partiu, e quando
1883. Michele, a mulher, Teresa Pauletto, e o filho Giuseppe, de dois anos, embarcaram em Gênova no vapor Scrivia em 22 de novembro. Com eles viajou o irmão caçula, Pietro. Chegaram em 15 de dezembro e foram direto para a serra gaúcha.
Entre 1883 e 1887. Cecilia e o marido, Luigi Rigon. O primeiro filho nasceu em Mirabella, em Breganze, em abril de 1883; o segundo, em Pinto Bandeira, em maio de 1887.
1888. Guerino, Elisabetta Ghirardello e os cinco filhos chegaram em outubro no vapor Malabar e foram para Minas Gerais.
1891. Antonio, Elisabetta Todesco e seis filhos, o menor com cinco meses. O passaporte foi expedido em Bassano del Grappa em 23 de novembro. Foram para Bento Gonçalves.
Até o navio
Do Alto Vicentino a Gênova ia-se de trem, num dia. No porto esperavam intermediários, pensões, cambistas e a visita médica no cais. O passaporte era pedido pelo chefe da família; mulher e filhos viajavam como acompanhantes. Antes, era preciso um atestado de que nada impedia a partida e, para os homens em idade militar, a situação com o exército em dia.
No mar
A viagem durava três ou quatro semanas, na terceira classe, no entreponte: o espaço entre o porão de carga e o convés, com beliches de ferro em dois ou três andares, dormitórios separados por sexo, comida racionada e água que azedava nos tanques. Muitas crianças não chegavam. Todas as famílias De Toni chegaram sem perder ninguém.
A história Trinta dias no entreponte conta como era a viagem.
Por que o Brasil
O Brasil precisava de braços. A Lei de Terras, de 1850, tinha acabado com a doação de terras; o fim do tráfico de escravizados, no mesmo ano, e a abolição, em 1888, deixaram as fazendas de café atrás de trabalhadores. Os governos passaram a pagar passagens, e agentes percorriam as aldeias do Vêneto oferecendo a viagem. Parte da propaganda era verdadeira. Parte, como mostra O cartaz que não é de 1880, foi inventada depois.
Havia dois Brasis à espera. Em São Paulo e em Minas Gerais, o imigrante ia trabalhar em fazenda alheia. No Sul, recebia ou comprava a prazo um lote de terra para cultivar. Os De Toni conheceram os dois.