É onde a família aparece pela primeira vez num papel: um testamento de 1435, numa aldeia ao pé das montanhas de Vicenza. Por dois séculos e meio, os De Toni compraram, venderam, arrendaram, casaram e enterraram os seus ali.
Em janeiro de 1665, dois homens de Marano Vicentino foram chamados para dar preço a cada peça do enxoval de uma noiva que entrava para a família De Toni. O papel fecha em 647 troni. Não havia um palmo de terra na conta.
Marano Vicentino fica no Alto Vicentino, na faixa de planície e colina ao pé das montanhas, perto do rio Astico. É terra de trigo, vinha e amoreira. É ali que a família De Toni aparece pela primeira vez num documento, e é ali que ela vive, pelo que os papéis mostram, até o fim do século XVII.
Um testamento na casa do filho
Numa terça-feira, 18 de janeiro de 1435, um homem doente chamou o notário à casa do filho. O notário era Leonardo, filho de Zuane, de San Vito di Leguzzano. O doente se apresentou como Antonio, filho de Vitale, do falecido Toneto: três gerações da família na primeira linha do documento mais antigo que ela tem.
O testamento cuida primeiro da mulher. Caterina, filha de Giordano, receberia todos os anos oito staia de trigo e quatro mastelli de vinho, e teria uma casa com telhado, paredes e sobrado, enquanto vivesse viúva. Depois vêm os filhos: Bartolamio, o herdeiro, em cuja casa o pai ditava as vontades, e Demetria, declarada filha legítima e natural. Por fim, um legado ao neto, Dominico.
Homens livres numa terra de Veneza
Desde 1404, Vicenza e o seu território pertenciam à República de Veneza. Nas aldeias, os chefes de família se reuniam na vicinia, elegiam um chefe da comunidade, o Degan, e votavam com bolinhas coloridas. Eram homens livres, não servos de um senhor.
A terra, porém, quase nunca era toda deles. Os cadastros fiscais do século XVI mostram os De Toni ao mesmo tempo como donos de alguns pedaços e arrendatários de outros. Um dos contratos usados era o livello: renovado a cada dez anos, pago em grão, vinho e galinhas, à razão de seis por cento do valor da terra, às vezes quatro.
O que os papéis guardaram
Quase tudo o que se sabe dessa gente vem de papéis feitos por obrigação: comprar, vender, arrendar, casar, herdar. Em 1564, Gio:Marco De Toni ditou testamento e deixou tudo ao filho único, Hieronimo. Em 1567, Hieronimo vendeu a um parente um campo de terra plantada com videiras, árvores e amoreiras. Em 1571, o filho dele, Bernardino, casou com Franceschina Molendinari.
Em 17 de agosto de 1590, com Hieronimo morto e três filhos ainda menores, alguém percorreu a casa e anotou tudo o que havia nela, objeto por objeto. A lista sobreviveu. A história O que havia dentro de uma casa em 1590 entra nessa casa.
Depois vieram a peste de 1630, que levou entre um terço e dois quintos da população do campo vêneto, o casamento de Orso De Toni com Francesca Capovino, em 1654, e o dote da cunhada dele, Laura Fioreto, avaliado peça por peça em 1665. Orso e Francesca tiveram treze filhos. Seis morreram crianças, e um sétimo, aos dezessete anos.
1404Vicenza se entrega à República de Veneza
1435Antonio, filho de Vitale, dita o testamento em Marano
1525Bernardino aparece em atos de compra e venda
1563O Concílio de Trento manda registrar os casamentos
1564Testamento de Gio:Marco De Toni
1590Inventário da casa de Hieronimo
1630A peste chega ao Vêneto
1654Casamento de Orso De Toni e Francesca Capovino