Na serra gaúcha, os De Toni viraram colonos: lotes medidos em linhas retas, casas de pedra e madeira, capelas erguidas pela vizinhança e um lugar que mudou de nome duas vezes.
Quando Michele De Toni chegou à serra, em dezembro de 1883, as colônias Dona Isabel e Conde d'Eu tinham menos de dez anos. Eram mata cortada em linhas retas, com lotes vendidos a prazo a famílias do Vêneto, do Trentino e da Lombardia, e também a alemães, poloneses e brasileiros. Nos quinze anos seguintes chegaram os irmãos dele, um a um.
Léguas, linhas e lotes
O governo dividia a terra em léguas; as léguas, em travessões; os travessões, em linhas, que eram ao mesmo tempo estrada e vizinhança. O traçado era feito na planta, sem respeitar o relevo: as linhas subiam e desciam morro. O lote padrão tinha vinte e cinco hectares, com duzentos a duzentos e cinquenta metros de frente e mais de um quilômetro de fundo.
A terra era vendida a prazo, com título provisório. Para não perder o lote, a família tinha dois anos para provar "morada habitual e cultura efetiva": morar ali e plantar. Guerino já não recebeu lote do governo. Comprou o dele, o número 13 da Linha Jacintho Sul, com o dinheiro juntado em Minas.
A casa
Primeiro vinha um barracão de troncos coberto de tabuinhas. Depois, a casa que ainda se vê em fotografias antigas: um porão de pedra encaixado na encosta e, em cima, a casa de madeira de araucária. O porão era oficina e despensa: ali se faziam o vinho, o salame e o queijo. A história A casa de pedra e madeira conta como ela era por dentro.
A capela e o armazém
A vizinhança de uma linha fundava a própria capela: alguém doava o terreno, os homens trabalhavam aos domingos, e o padre vinha poucas vezes por ano. No resto do tempo, as rezas eram puxadas pelo mais letrado. A comunidade pagava o professor.
O outro centro da linha era o comerciante. Ele vendia o que a colônia não produzia, comprava o que os colonos colhiam, emprestava dinheiro, anotava tudo em conta corrente e resolvia brigas. Até os portos do rio Caí eram seis dias de viagem.
A família se espalha
Os irmãos que chegaram primeiro morreram cedo: Pietro em 1895, Michele em 1896, Cecilia em 1897. Quando Guerino chegou, só Antonio, instalado em Bento Gonçalves desde 1891, ainda estava vivo. Os filhos de Guerino casaram entre 1896 e 1914 e tiveram, entre eles, sessenta e dois filhos documentados. A terra de um lote não dava para tantos. Já nos anos 1900, filhos de Guerino começaram a sair da serra: Giuseppe para o alto Taquari, Fortunato Américo para o outro lado do rio das Antas, Francesco Giovanni para o norte do estado.
Um lugar, três nomes
O lugar onde Guerino viveu trinta e cinco anos chamou-se Silva Pinto, depois Nova Pompéia, depois Pinto Bandeira, sem que ele se mudasse. A história Um lugar, três nomes conta por quê.
1874Demarcadas as colônias Dona Isabel e Conde d'Eu
1875Primeiros italianos no Campo dos Bugres
1878Sebastiano Maria recebe o lote 12 da Linha Silva Pinto
1883Michele chega à serra
1890Criado o município de Bento Gonçalves
1893Começa a Revolução Federalista
1897Guerino se instala na Linha Jacintho Sul
1902Silva Pinto passa a se chamar Nova Pompéia
1913Nova Pompéia vira distrito, com cartório
1925O cartório pega fogo
1932Morre Guerino, aos noventa anos
Continue explorando
Tudo o que esta sala guarda
Cada pessoa, fotografia, documento, lugar e acontecimento leva a outras partes da história da família.
1874 · Em 1874 são demarcadas, na serra gaúcha, as colônias que viriam a ser Bento Gonçalves e Garibaldi. Os primeiros imigrantes italianos chegam no ano seguinte.